Sistemas de água prediais parecem simples: um reservatório inferior recebe água da rede pública, uma bomba eleva para o reservatório superior, e a gravidade distribui para as unidades. Na prática, garantir disponibilidade, qualidade e eficiência exige automação e telemetria. Este guia apresenta uma arquitetura do sensor ao dashboard, com escolhas de sensores, padrões MQTT, KPIs e um roteiro de implementação.
Arquitetura de referência
- Sensores & atuadores: nível, pressão, vazão (opcional), estado/falha de bomba, corrente elétrica.
- PLC/RTU ou gateway: leitura de I/O, histerese/antioscilação, intertravamentos, normalização de tags.
- MQTT: publicação com QoS 1, tópicos padronizados, mensagens retidas para estados.
- Broker: local e/ou nuvem, com TLS e ACL por tópico.
- Persistência: banco de séries temporais/relacional com retenções diferenciadas e downsampling.
- Dashboards & alarmes: visão executiva (disponibilidade, consumo, eventos) e visão técnica (tendências).
Sensores: prós e contras
| Grandeza | Opções | Prós | Contras | Uso típico |
|---|---|---|---|---|
| Nível | Boia (ON/OFF), Ultrassônico, Pressão hidrostática | Boia é barata; ultrassônico sem contato; pressão é robusto | Boia é binária; ultrassônico sensível a espuma/eco; pressão requer calibração | Controle de partida/parada; tendência e alarmes |
| Pressão | Transdutor 4–20 mA | Confiável; diagnóstico de cavitação/restrições | Instalação com tomada de pressão; precisa de compensação | Rede de distribuição, sucção/descarga |
| Vazão | Eletromagnético, ultrassônico clamp-on | Gestão de consumo e perdas | Custo maior; instalação/conduto reto | Condomínios grandes, auditorias |
| Elétrico | TC para corrente, contato de falha térmica | Proteção e saúde da bomba | Escala/config. adequadas | Alarmes de sobrecorrente, runtime |
Lógica no PLC/gateway
- Histerese para nível: evita liga/desliga frequente (short cycling).
- Intertravamentos: pressão mínima de sucção, válvula aberta, atraso entre partidas.
- Detecção de falhas: sobrecorrente, falta de fase, motor não parte, seca (pressão baixa persistente).
- Agregações: médias de nível a cada 10 s, contadores de partidas, runtime acumulado.
- Store & forward: fila persistente durante perda de internet.
Padrões MQTT (tópicos e payloads)
Tópico: org/<site>/agua/<equip>/<variavel>
- Estado da bomba (retido):
org/acme/torreA/agua/bomba01/state→{"v":1,"ts":1730162400000,"value":"on"} - Nível (m):
org/acme/torreA/agua/reservatorio_sup/level_m→{"v":1,"ts":1730162410000,"value":3.12,"unit":"m"} - Pressão (bar):
org/acme/torreA/agua/rede/pressure_bar→{"v":1,"ts":1730162415000,"value":2.8,"unit":"bar"} - Evento (não retido):
org/acme/torreA/agua/bomba01/events/overcurrent→{"v":1,"ts":1730162420000,"value":true} - Status do gateway (LWT, retido):
org/acme/torreA/gateway/status→{"v":1,"ts":1730162430000,"value":"online"}
Boas práticas: QoS 1 como padrão; retained apenas para estados/setpoints; versionar payload (v); manter metadados (unidades, limites, nomes) fora da telemetria em um catálogo.
KPIs e dashboards
- Disponibilidade do sistema (% tempo com pressão ≥ limite na rede).
- Runtime de bomba (h/dia), partidas/dia e ciclos por hora.
- Nível do reservatório (tendência, mín/máx, tempo em faixas críticas).
- Alarmes ativos (prioridade, tempo de reconhecimento, recorrência).
- Consumo específico (kWh/m³) quando houver medição elétrica e vazão.
UX do painel: uma visão executiva com cartões de status (verde/âmbar/vermelho), KPIs e último evento; e uma visão técnica com tendências (nível, pressão) e tabela de eventos com filtros.
Alarmes inteligentes (reduzindo ruído)
- Histerese em nível e pressão; evite thresholds simples.
- Debounce em digitais (falha térmica, boia).
- Janelas móveis para detectar tendência de esvaziamento.
- Prioridades: crítico (parada do sistema), alto (falha de bomba), médio (nível baixo).
- Playbooks: ação sugerida por alarme e tempo de resposta esperado.
Resiliência e segurança
- Buffer offline no gateway, com reenvio idempotente.
- TLS no broker; ACL por tópico; usuários separados por função.
- LWT para status de gateways; estados de equipamentos como mensagens retidas.
- Segmentação OT/IT e inventário de ativos (credenciais, firmware).
Custos sob controle
- Publicar por variação (delta) ou em janelas (ex.: média 10 s) para reduzir tráfego.
- Retenção: brutos por 7–14 dias; agregados de 1 min por 6–12 meses; diários para longo prazo.
- Foque em KPIs acionáveis; evite coleções de gráficos sem uso operacional.
Checklist de comissionamento
- Instrumentação: verifique escala/offset, polaridade em 4–20 mA e vedação/posição de sensores.
- Lógica: teste histerese de nível, intertravamentos, tempo mínimo entre partidas.
- MQTT: valide tópicos, QoS, retained e LWT; execute teste de queda de internet.
- Alarmes: simule sobrecorrente, nível baixo prolongado, pressão fora de faixa.
- Dashboards: revise rótulos, unidades, limites e cores; crie usuários e permissões.
- Documentação: catálogo de tags, políticas de retenção, playbooks e contatos de plantão.
Exemplo de sequência operacional
- Nível do superior cai abaixo de StartLevel; PLC aplica histerese e liga bomba.
- Gateway publica
.../bomba01/state="on"(retido) e começa a enviar pressão/nível a cada 10 s. - Se pressão de sucção < limite, intertravamento desliga a bomba e evento
.../events/low_suctioné publicado. - Ao atingir StopLevel e estabilidade, bomba desliga; runtime e partidas são acumulados e enviados.
- Dashboard atualiza KPIs e alarmes; relatório diário consolida disponibilidade e eventos.
Conclusão: com sensores adequados, lógica robusta no PLC/gateway e um pipeline MQTT bem governado, é possível transformar sistemas de água prediais em operações visíveis, previsíveis e eficientes. Comece pelo essencial (nível, pressão, estado/falha da bomba), padronize tópicos e payloads, e evolua para KPIs e alarmes inteligentes. O resultado: menos emergências, mais disponibilidade e decisões baseadas em dados.